Sábado à noite

São 22h15 de sábado, eu trabalhei como um xarope desde as 13 horas e estou na Marginal do Tietê esperando o maldito ônibus, que, ora pois, chega e, aleluia!, não me deixa na mão. Subo e, como de costume, ele está lotado. (Eu acho que nunca vou conseguir entender o motivo desse maldito Cometa estar tão lotado a essa hora da noite.)
Busco e consigo achar um banco vazio, sem ninguém para dividir o aperto. É o último disponível. Tento reclinar a cabeça e cochilar até chegar em casa, mas é impossível, porque o ônibus da frente está em EBULIÇÃO completa. (Isso é outra coisa que eu acho que nunca vou entender: por que as pessoas ficam tão ANIMADAS no Cometa de sábado à noite?)
Um ou dois bancos atrás, ao lado do corredor, um sujeito com a entonação de voz semelhante à do Richarlyson, com direito a lingua presa, ouve um bate-estaca horroroso em alto volume e conversa animadíssimo sobre a balada em que esteve, ou será a que ele irá?
No banco logo atrás de mim, um casal evangélico, com toda a pinta de recém-convertido, conversa sobre o malefício das drogas. Na verdade trata-se de um monólogo, porque o cara fala mais que a própria boca, e só ouço a voz feminina em pequenos “aham”, “hum hum” e, na melhor das hipóteses, “é verdade”. É um papo que me irrita deveras, porque quem me conhece sabe que eu sou religioso, mas tenho uma certa restrição a citar as palavras “Jesus” e “Cocaína” na mesma frase. E não se trata de falta de respeito ao segundo mandamento, mas sim por ter um pé e meio atrás dessas histórias fantásticas de conversão.
Nos dois bancos à frente, quatro garotas, que ainda devem estar na faixa dos 20 e poucos anos, falam como matracas, animadíssimas, torcendo para que a chuva não tenha deixado muito enlameada a chácara onde será a festa à qual irão. (Começo a compreender por que as pessoas saem de São Paulo para Sorocaba no sábado à noite. Deve ser uma daquelas festas cretinas cheias de mauricinhos e que você liga para uma “infoline” para obter informações. Passo.)
De repente, um momento de silêncio no banco imediatamente à frente. Uma discreta e curiosa olhada e a constatação: as duas estão se beijando. Penso e twitto: “Extremos separados por 3 metros e eu no meio”. O que será que os evangélicos daqui de trás pensariam dessa cena? Que acaba sem qualquer romantismo: as duas do banco seguinte se viram e fazem aquelas velhas piadas para separar o casal, “Larga”, “Joga água fria”, “Vou contar pra sua mãe” e por aí vai.
Consigo pegar no sono, acho que uns 20 minutos, mas acordo com uma ligação da Camila perguntando quanto tempo ainda vou demorar. As garotas, animadíssimas, começam a reclamar da demora da viagem, a balada deve ser fortíssima, e falam da vontade de “mijar”, assim mesmo, além de contar piadas sujas e falar besteiras – em voz alta – com uma naturalidade de constranger o policial e de acabar com a excitação de qualquer homem mais animadinho que sonha em “converter” uma lésbica.
E assim chego em casa, já são 23h15 (foi rápido) e a Camila me espera para chegarmos em casa. Se todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite, tudo o que eu quero é só um pouco de paz e sossego, o que, até agora, foi impossível.

Lata de sardinhas

Não faz muito tempo que eu reclamei dos micro-ônibus (só que agora escreve diferente) que a Cometa colocou para fazer alguns horários na linha Sorocaba-São Paulo. Mas ontem, na volta, tive a chance de viajar num deles e fazer minha estréia na categoria lata de sardinhas.
Sim, porque não é outra a percepção que a gente tem ao andar num desses com lotação completa – e eu ainda tive a “sorte” de sentar na última fileira, espremido entre outros dois passageiros, sendo um deles um rapaz que estava até constrangido com o aperto, e outro um tiozinho advogado, absorto até onde podia num livro jurídico, que não se importava de ficar o tempo todo com o cotovelo encostado na minha barriga cada vez maior.
Que dureza. E pior que nem valeu a pena se apertar. Isso porque eu peguei esse com o horário das 17h40, e fiz questão dele porque o seguinte, das 17h50, faz o caminho via Éden na chegada a Sorocaba, com uma razoável volta extra que leva uns 20 minutos, e não quis esperar pelo das 18h. Pois bem, logo depois que cheguei a Sorocaba e desci do ônibus, enquanto ainda esperava a Camila chegar pra me levar até em casa, o maledeto ônibus das 18h encostou. E, aparentemente, pouco cheio. Escolhas, escolhas…

No claro

Acabou o horário de verão, e a única coisa boa disso – pois era bom demais chegar em Sorocaba ainda sob dia claro – é que começa a amanhecer mais cedo, agora por volta das 5h40, mais ou menos – diferente do breu que eu vinha pegando por volta das 6 horas.
Não que faça alguma diferença, até porque dormi como um bebê normalmente na viagem de hoje, mas a sensação de insegurança ao caminhar nesse horário fica um pouco menor agora. Pena que, nas próximas semanas, começa a anoitcer cada vez mais cedo e logo estará escuro como noite quando eu chegar em casa. Nada é perfeito, de fato. Mas, se eu pudesse escolher, preferia a adoção permanente do horário de verão.

Quando o sistema cai…

“Caiu o sistema”. A desculpa preferida de técnicos de informática, bancários e atendentes de telefônicas pode ser um problema terrível quando resolve virar realidade numa grande empresa de ônibus interurbanos na noite de uma sexta-feira, o Dia Mundial de Voltar pra Casa.

Segue o relato do meu irmão na sexta-feira passada (eu tinha saído mais cedo do trabalho e nem fui até a Barra Funda):

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Sono

Tenho sono. Tenho muito sono. Nos últimos três dias, dormi praticamente a viagem toda, e em vez de descer ali na ponta e vir andando até o jornal, como fiz na semana passada inteira, estou esticando até a Barra Funda pra ver se consigo dormir mais um pouquinho.

O que mais me incomoda nesse novo horário é o fato de estar tudo escuro quando saio de casa. Óbvio, são 5 e pouco da manhã, mas é meio estranho pensar que eu já estou na rua, (supostamente) acordado, enquanto o povo dorme o sono dos justos. Acho que quando acabar o horário de verão e começar a amanhecer mais cedo vai ser um pouco melhor. Nada contra o horário de verão, muito pelo contrário, pois se é ruim sair no escuro, não tem coisa melhor do que chegar e ainda estar dia.

Acho que com o tempo eu consigo me acostumar melhor, até porque estou longe de ser o único a fazer isso. Nós somos tantos, aliás (e hoje o Cometa das 5h15 estava bem cheio, registre-se), que saiu até matéria no último sábado no Tem Notícias, o SPTV local, sobre a vida do povo que vai “aproveitar as oportunidades da Capital”, um discurso que eu confesso ter achado provinciano demais para 2009, mas a matéria até que ficou boa, mostrando inclusive a rotina de um casal que acorda às 4 e qualquer coisa da manhã pro sujeito conseguir pegar um fretado.

Claro que, em tempo de TV, mal deu tempo de abordar melhor o assunto. Mas só o fato de ter saído já me anima a continuar escrevendo neste blog, que um dia resultará num livro. Isso, claro, se o sono deixar que eu continue colecionando novas histórias e experiências, porque, do jeito que a coisa está, periga eu só conseguir escrever sobre sonhos.

Crônica dos novos tempos

4h45 – Acordo, tomo banho, troco de roupa .

5h15 – Saio de casa.

5h35 – O Cometa das 5h20 passa ali na Marginal.

5h50 - O Cometa chega à Castello Branco. Pego no sono em seguida.

6h35 – Acordo e já está quase terminando de amanhecer. O ônibus está ali no trevo de Osasco, parado em meio a um trânsito razoavelmente pentelho. É inacreditável como tem gente em São Paulo, para ter tanto trânsito a essa hora da madrugada.

6h50 – O Cometa passa pela Ponte dos Remédios e o trânsito começa a fluir. Lentamente.

7h05 - Desço do ônibus ali na altura de sempre, na entrada da Ponte Júlio de Mesquita Neto.

7h15 – Chego ao jornal, com 45 minutos de adiantamento. Trabalho como um doido durante boa parte do tempo.

16h00 - Saio do jornal, vou até a Barra Funda para pegar o Cometa da volta.

18h30 - Estou em casa. E encontro a Camila acordada, por incrível que pareça. Missão cumprida, dia ganho de trabalho, e mais um tempo para curtir minha mulher, meu filho que vai nascer… Isso sim é vida.

Mudança de veículo

O negócio é que, a partir de 12/01, troco o Cometa nosso de cada dia por um ônibus fretado. A melhor notícia nem é essa, e sim o fato de voltar a trabalhar no horário de gente civilizada, ainda que, para isso, seja preciso acordar às 5 da manhã – mas pelo menos serápossível ter um mínimo de vida social à noite, além de uma convivência maior com a família, que ganhará novo integrante em 2009, afinal.

As minhas lembranças de viagens em ônibus fretado são das melhores possíveis, e estão esmiuçadas no capítulo 5 de <a href=http://amalgama2.blogspot.com/2008/01/na-cauda-do-cometa-parte-5.html target=blank>Na Cauda do Cometa</A>. Mas é claro que os tempos são completamente outros e as expectativas são completamente diferentes – e o objetivo maior é conseguir dormir o tempo todo, especialmente nas viagens de ida.

O negócio é que este blog continua, afinal as histórias de viagem continuarão e eventuais passeios de Cometa não devem faltar, principalmente nos inevitáveis fins de semana de trabalho. E, promessa de Ano Novo, em breve as coisas voltam ao ritmo normal, com novas histórias, reflexões e etcéteras, que são certamente a melhor parte.